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sábado, 12 de agosto de 2017

O Crato de todos os tempos

A Igreja da Sé do Crato (foto: Landisvalth Lima)
No ano simbólico dos 200 anos da Revolução Pernambucana pisava no solo sagrado da cidade do Crato, no estado do Ceará. Minha visita tinha o objetivo de ampliar as informações de que disponho para o início do meu 12º livro. Desejo escrever uma trilogia e, um dos livros deverá tratar da história de uma mulher, considerada a nossa primeira republicana perseguida e presa: Bárbara de Alencar. Ela foi a avó do escritor cearense José de Alencar. Depois da visita a Juazeiro do Norte, consolidando Padre Cícero como um dos protagonistas da trilogia (o terceiro nome ainda está em estudo), acompanhado de Ana Dalva, cheguei ao Crato na última quinta-feira, dia 3 de agosto. Estava num cenário de três séculos de história, que sempre me fascinou e deixou interrogações na minha cabeça.
Cícera, Ricky e Lúcia: zelando a história do Crato
(foto: Landisvalth Lima)
Antes mesmo de procurar onde dormir, fui logo à Praça da Sé. Enquanto fotografava e tomava anotações, conheci o representante comercial Valdir Júnior. Eu estava em frente ao local onde viveu Bárbara de Alencar. A casa foi demolida e hoje funciona o prédio da Secretaria da Fazenda. Valdir criticou o fato de não preservarem o local onde nasceu Bárbara e também a casa onde nasceu o padre Cícero, local próximo dali onde hoje é a casa do bispo. E foi Valdir Júnior o primeiro a chamar a atenção sobre a ainda existente rivalidade entre Crato e Juazeiro. Enquanto na cidade vizinha tudo lembra o padre, em Crato quase não se vê o nome de Cícero Romão. “Os potenciais da região estão amarrados por rivalidades.”, sentenciou Valdir.
Valdir Júnior (foto: Landisvalth Lima)
Segui então até o Museu Histórico do Crato, da Fundação Cultural J. de Figueiredo Filho. O local está com o segundo pavimento desativado. Ali funcionaram por longos anos a Prefeitura do Crato e a Câmara de Vereadores. No primeiro piso estava instalada a cadeia pública, parte onde hoje está quase todo acervo do museu. Lá fui muito bem recebido por Cícera Souza e Lúcia Brito, embora já fosse quase hora do almoço. Também lá conheci Ricky Seabra, ex-diretor do museu, que nos abriu as portas sobre seu trabalho de preservação da história do Crato. Ricky, filho de diplomata americano com brasileira, também nos indicou dois nomes importantes: o advogado Heitor Macedo e o memorialista e comunicador Huberto Cabral.
Ainda no museu, conhecemos a obra de Wanderson Petrova, focada em mulheres com problemas psicológicos. Ricky já havia contatado com o nosso Huberto Cabral que, em pleno almoço, deu uma aula de história sobre o Crato. O comunicador é uma enciclopédia viva. Huberto não só dá detalhes dos fatos como tem todas as datas de memória. Ele contesta a informação de que padre Cícero fundou Juazeiro do Norte. Segundo Huberto, o padre quando chegou lá já existia o distrito. “O que padre Cícero fez foi emancipar Juazeiro e ser prefeito por duas vezes. Ninguém pode negar que a cidade é o que é por causa dele.”, afirma Huberto. Ele também disse que o padre nunca foi pároco do Crato. Foi capelão em Juazeiro do Norte e padre em Caririaçu, até ser suspenso. Ele também contesta a informação de que padre Cícero foi expulso do Crato. “Saiu por vontade dele para ser capelão em Juazeiro.”, finalizou.
Huberto Cabral: Enciclopédia viva sobre o Cariri  (foto: Landisvalth Lima)
Além de Huberto Cabral, já pela noite, tivemos um bom papo com o advogado, escritor e pesquisador Heitor Feitosa Macedo. Natural do Crato, ele é autor do livro Sertões do Nordeste I – Inhamuns e Cariris Novos, edição esgotada. Heitor é uma biblioteca e mantém na Internet o blog Estórias & História (veja link ao lado). Na sua explanação sobre as revoluções de 1817 e 1824 em Pernambuco, não tem como não preencher os hiatos que qualquer interessado possa ter sobre os fatos. Também, ele estudou toda a sua descendência e descobriu ter como antepassado o José Francisco Pereira Maia, um coronel que foi traído pela primeira esposa e resolveu viver com sete mulheres, cinco delas tias do padre Cícero. Para completar o inusitado, ele é descendente de uma das tias do padre e se casou com a descendente direta da primeira esposa do Francisco Maia.
O advogado Heitor Macedo é pesquisador e escritor (foto: Landisvalth Lima)
Heitor Macedo preenche muitos espaços vazios da história de Bárbara de Alencar e me ajudou sobremaneira nos brancos da saga da heroína do Crato. É que a História é feita pelos vencedores. Bárbara participou de duas revoluções, embora haja pesquisadores que afirmem sua participação na Confederação do Equador como diminuta. Embora derrotada em ambas, e morta longe do Crato, em Fronteiras, no Piauí, seu nome desperta interesse. O filho, José Martiniano de Alencar, virou senador e governador do Ceará; o neto, José de Alencar, virou o maior prosador romântico do Brasil. Além disso, a união dos Alencar com os Arraes gerou filhos ilustres como Miguel Arraes de Alencar e Eduardo Campos, este último  morto durante a eleição presidencial de 2014. Também podemos acrescentar nesta lista o Rei do Baião, Luís Gonzaga. Há quem afirme que um ramo da família de Bárbara Alencar desaguou no sanfoneiro mais famoso do Brasil. Afinal, Bárbara nasceu no sítio Caiçara, propriedade do pai dela em Exu – Pernambuco. Lá também nasceu Luís Gonzaga.
Bárbara Alencar era neta do português Leonel Alencar Rego, dono de terras em Senhor Bom Jesus dos Aflitos de Exu, onde está localizada até hoje a fazenda Caiçara. Adolescente, Bárbara se mudou para a então vila do Crato, no Ceará, casando-se com o comerciante português José Gonçalves do Santos. Na Revolução Pernambucana de 1817, foi presa e torturada numa das celas da Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção, no Recife. Após a Confederação do Equador, morreu depois de várias peregrinações em fuga da perseguição política em 1832, de causas naturais, na cidade piauiense de Fronteiras, mas foi sepultada em Campos Sales, no Ceará.
O escritor José de Alencar morreu sem romancear esta saga. Será uma missão e tanto de minha parte fazê-lo. Para tanto, já foi devidamente convidado o Heitor Macedo para, além de revisar a pertinência da questão histórica, que não terá nenhum compromisso com a História como ciência, já que é ficção, me fará a honra de prefaciá-lo. Não seu quando terminarei a primeira parte da trilogia, que provisoriamente tem o nome de Kariri sangrento, mas os dois dias de visita ao Crato foram esclarecedores. Além de ter um povo acolhedor, a cidade do Crato pode se orgulhar da sua história e da sua gente.
Para ver o artigo de Heitor sobre Bárbara de Alencar, dê um clique AQUI.
Para ver fotos sobre a cidade do Crato, dê um clique AQUI.
Para ver um documentário sobre os 250 anos do Crato, dê um clique AQUI.